Logística na Margem Equatorial: Estamos preparados para a nova geografia do offshore brasileiro?

Talvez estejamos assistindo ao início de uma das maiores reorganizações geográficas da cadeia de óleo e gás brasileira desde o desenvolvimento do pré-sal

Logística na Margem Equatorial: Estamos preparados para a nova geografia do offshore brasileiro?

O recente anúncio da identificação de hidrocarbonetos pela Petrobras no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, colocou novamente a Margem Equatorial no centro das atenções e reforçou a perspectiva de uma nova fronteira para o offshore brasileiro, em uma província geológica cujo potencial a vizinha Guiana começou a revelar ainda em 2015. Mas essa possível mudança de geografia traz um desafio que vai muito além da exploração.

Durante décadas, o desenvolvimento das bacias de Campos e Santos consolidou, no Sudeste, um sofisticado ecossistema de portos e terminais, aeroportos, bases de apoio, armazéns, áreas alfandegadas, transportadores, fornecedores especializados, infraestrutura aduaneira e profissionais capacitados para atender a uma indústria altamente regulada. Esse ecossistema ganhou nova escala após a Lei do Petróleo, de 1997, que marcou a abertura do setor.

Agora, a geografia do offshore brasileiro começa a mudar. Projetos como Sergipe Águas Profundas e o avanço exploratório da Margem Equatorial apontam para um movimento progressivo da atividade offshore em direção ao Nordeste e ao Norte do país.

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A escala dessa mudança ajuda a dimensionar o desafio. O pré-sal alcançou 3,88 milhões de barris de óleo equivalente por dia de produção em 2025. Agora, novas fronteiras avançam para outras regiões: projetos como o “Sergipe Águas Profundas” terão capacidade de 240 mil barris/dia, além de até 18 milhões de m³/dia de gás, enquanto a Margem Equatorial tem potencial estimado pela ANP de até 30 bilhões de barris de óleo equivalente e poderá adicionar cerca de 1,1 milhão de barris/dia.

O impacto vai além da produção. Estudos indicam que o desenvolvimento dessa nova fronteira poderia levar o Brasil, hoje entre os dez maiores produtores, ao grupo dos cinco maiores produtores mundiais de petróleo. Estamos diante de uma escala capaz de redesenhar não apenas a posição do país no mercado global, mas também a geografia de sua cadeia de suprimentos.

Há ainda um fator crítico: tempo. Especialistas estimam que um projeto de petróleo pode levar cerca de dez anos entre a perfuração e o início da produção, o que coloca a segunda metade da década de 2030 como uma janela estratégica para a Margem Equatorial, justamente quando se espera uma desaceleração da produção do pré-sal. O longo ciclo de licenciamento e desenvolvimento comprime essa janela e reforça a urgência: portos, bases operacionais, armazéns, fornecedores, pessoas e capacidade aduaneira precisam estar preparados antes que a produção chegue.

A discussão normalmente se concentra no potencial das reservas, nos investimentos necessários, no licenciamento ambiental e na capacidade futura de produção. Há, entretanto, outra pergunta que precisa ganhar espaço: A cadeia de suprimentos e a logística brasileiras estão avançando na mesma velocidade que as novas fronteiras de exploração e produção?

“SERGIPE ÁGUAS PROFUNDAS”: O PRIMEIRO GRANDE TESTE

“Sergipe Águas Profundas” oferece uma oportunidade interessante para observar esse processo. O projeto representa uma nova escala de atividade offshore para a região e exigirá uma cadeia logística capaz de sustentar operações marítimas, aéreas e terrestres por décadas. O próprio planejamento ambiental já considera rotas de embarcações de apoio partindo de Sergipe e Alagoas, além de operações aéreas a partir de Aracaju.

Ao mesmo tempo, eventos realizados no Nordeste e no Norte vêm reunindo Petrobras, operadores, fornecedores, o governo e empresas da cadeia offshore para discutir infraestrutura, oportunidades e a preparação da cadeia produtiva.  A indústria, portanto, já começa a organizar o ecossistema necessário para sustentar essa nova geografia.

Além disso, “Sergipe Águas Profundas” pode representar algo ainda maior: um primeiro grande aprendizado sobre o que significa deslocar parte de uma cadeia historicamente concentrada no Sudeste para novas regiões do país.

DEPOIS DE SERGIPE, A MARGEM EQUATORIAL

A Margem Equatorial agrava significativamente esse desafio. Uma eventual transformação das descobertas exploratórias em projetos comerciais exigirá muito mais do que FPSOs, sondas e equipamentos submarinos. Será necessário decidir de onde sairão os materiais, onde os equipamentos importados serão desembaraçados, onde serão armazenados, quais portos funcionarão como bases de apoio, onde estarão os estoques críticos, quais fornecedores conseguirão atender localmente e qual infraestrutura terrestre conectará esses diferentes pontos.

A construção desse novo ecossistema já começa a entrar na agenda da indústria. Amanda Pires, executiva da indústria que recentemente participou de um painel no Amazon Energy 2026, em Belém, destacou uma dimensão importante desse movimento: “Discutimos justamente como o domínio de regimes como o Repetro, o compliance fiscal e a qualificação da mão de obra e investimentos serão determinantes para que fornecedores locais consigam efetivamente participar dessa nova cadeia. Esse é um dos grandes desafios e também uma das grandes oportunidades desse novo ciclo do offshore brasileiro”.

Uma operação dessa escala depende de um ecossistema amplo: capacidade portuária, áreas para movimentação e armazenagem de equipamentos, bases de apoio offshore, recintos alfandegados, transporte rodoviário, aeroportos, manutenção, fornecedores, mão de obra especializada e capacidade de resposta a emergências.

Isso significa discutir hoje questões que podem parecer operacionais, mas que, na realidade, são estratégicas. Onde estarão os próximos grandes hubs logísticos do offshore brasileiro?

A INFRAESTRUTURA QUE NÃO APARECE NO MAPA

Há também uma infraestrutura menos visível, mas igualmente importante: a infraestrutura institucional e aduaneira. Grande parte dos equipamentos utilizados pela indústria offshore é importada e depende de uma estrutura preparada para operar regimes como Repetro-Sped, Repetro-Industrialização, admissão temporária, entreposto aduaneiro, Drawback e Recof-Sped, além de recintos alfandegados adequados.

Esse conhecimento foi construído ao longo de décadas no Sudeste. Empresas, operadores logísticos, despachantes, terminais e autoridades aduaneiras acumularam experiência para lidar com operações dessa complexidade. Ao longo da minha experiência na logística da indústria de óleo e gás, vivi situações em que equipamentos destinados a operações no Nordeste eram importados e desembaraçados no Sudeste para, posteriormente, percorrer milhares de quilômetros por rodovia até o local de utilização.

À primeira vista, essa decisão pode parecer contraditória do ponto de vista logístico. Por que desembarcar um equipamento mais distante da operação e adicionar transporte terrestre, prazo, custo e complexidade? Parte da resposta está na maturidade do ecossistema.

Décadas de operações nas bacias de Campos e Santos criaram no Sudeste não apenas infraestrutura física e fornecedores especializados, mas também experiência acumulada na utilização de regimes aduaneiros complexos entre empresas, operadores logísticos, despachantes, recintos alfandegados e autoridades.

Também já vivenciei situações em que a mesma operação recebeu interpretações ou entendimentos fiscais distintos, dependendo da unidade envolvida. Para equipamentos de alto valor, sujeitos a regimes especiais, uma diferença de entendimento pode significar atraso, custo adicional, necessidade de revisão documental e, principalmente, perda de previsibilidade operacional. Esse risco ganha outra dimensão quando imaginamos a escala de projetos como o Sergipe Águas Profundas e, posteriormente, a de uma eventual produção na Margem Equatorial.

A legislação federal será a mesma. A maturidade operacional para aplicá-la não será necessariamente. Por isso, a preparação da nova fronteira offshore não deve considerar apenas infraestrutura física. Ela precisa incluir capacidade aduaneira, recintos adequados, conhecimento técnico, processos e sistemas, além de uma integração efetiva entre empresas e autoridades — especialmente entre as unidades aduaneiras do Sudeste, onde se concentra grande parte da experiência acumulada pelo setor, e as que passarão a suportar volumes crescentes no Nordeste e no Norte.

Essa transferência de conhecimento e harmonização de procedimentos levam tempo e precisam anteceder o aumento das operações. Caso contrário, gargalos, atrasos e perda de previsibilidade podem comprometer a eficiência da cadeia de suprimentos. Um porto pode ter capacidade física para receber determinada carga e, ainda assim, o ecossistema ao seu redor não estar preparado para processar, com velocidade e previsibilidade, centenas ou milhares de movimentos associados a grandes projetos offshore.

INFRAESTRUTURA PRECISA ANTECEDER A PRODUÇÃO

Projetos offshore trabalham com horizontes longos. Justamente por isso, seis ou dez anos podem parecer muito tempo. Para infraestrutura, não são. Portos precisam planejar capacidade. Operadores precisam decidir onde estabelecer bases. Empresas precisam avaliar armazéns e áreas alfandegadas. Fornecedores precisam decidir onde investir. Pessoas precisam ser capacitadas. Autoridades e empresas precisam construir experiência operacional. E os governos precisam entender que esses projetos podem gerar muito mais do que apenas a produção de petróleo.

Quando uma cadeia offshore se estabelece em determinada região, ela movimenta o transporte, a armazenagem, os serviços marítimos, a engenharia, a manutenção, a hotelaria, o treinamento, os fornecedores locais e os empregos qualificados. Existe, portanto, uma oportunidade relevante de desenvolvimento econômico regional. Mas capturar essa riqueza dependerá da capacidade de transformar a atividade offshore em uma cadeia produtiva local.

A CORRIDA JÁ COMEÇOU

O movimento do offshore brasileiro em direção ao Nordeste e ao Norte ainda está em seus primeiros capítulos, mas alguns sinais já são visíveis. “Sergipe Águas Profundas” começa a mobilizar empresas, fornecedores e governos no estado. A Margem Equatorial coloca Amapá, Pará e outros estados no centro de uma discussão que pode definir uma nova fronteira energética brasileira.

Talvez estejamos assistindo ao início de uma das maiores reorganizações geográficas da cadeia de óleo e gás brasileira desde o desenvolvimento do pré-sal. Por isso, a discussão não deveria ser apenas sobre onde estará o próximo barril. Precisamos também começar a discutir onde estarão os portos, os armazéns, as bases, os fornecedores, as pessoas e a infraestrutura aduaneira necessários à produção desse barril. A geologia está apontando para novas fronteiras. A cadeia de suprimentos e a logística precisam chegar mais cedo.

Charles Lopes - Consultor da Comissão de Direito Aduaneiro da OAB-RJ e pesquisador do Núcleo de Operações do Insper. Atua há mais de 20 anos como gestor de logística internacional e Supply Chain, com experiência consolidada nas indústrias automotiva e de óleo e gás. Graduado em Administração pelo Mackenzie, possui MBA Executivo em Finanças e é Mestre em Administração, com ênfase em Estratégia, pelo IBMEC. É doutorando em Business no ISCTE, em Lisboa, onde desenvolve pesquisa sobre descomissionamento offshore, com foco no Brasil e no Mar do Norte.

Kenyth Alves de Freitas - Professor assistente do Insper na área de Operações. É doutor em Administração pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com mestrado na mesma área e graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi pesquisador visitante na Indiana University durante o doutorado. Atualmente, também integra o Comitê Técnico de Manufatura Avançada da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), onde colabora no apoio a políticas industriais.

Fonte: Coluna Insper

Via: Agência Logística de Notícias

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