Intralogística e automação: A corrida bilionária para reinventar armazéns
Robôs móveis, sistemas automatizados e softwares de gestão redesenham a operação de CDs no Brasil e no mundo; tema será um dos destaques no Logística do Futuro 2026
Pensa-se muito na eficiência de uma cadeia de suprimentos em relação à performance nas estradas, nos portos ou na última milha. Cada vez mais, porém, ela é decidida antes: nos corredores dos armazéns, nas docas e nos sistemas que orquestram o fluxo interno de mercadorias. É a intralogística que vem concentrando uma nova onda de investimentos em automação, robótica e software não só no Brasil, mas no mundo.
Os números da indústria apontam crescimento consistente, ainda que menos eufórico do que nos anos de pandemia. Segundo a consultoria britânica Interact Analysis, a entrada de pedidos de automação de armazéns cresceu 7% em 2025, mesmo em um cenário macroeconômico fraco — impulsionada, em parte, pela alta de custos de aço e mão de obra embutida nos projetos e por investimentos de grande escala de varejistas como Amazon, Walmart e Tesco.
Para o período 2025–2030, a consultoria projeta crescimento médio global de 6% ao ano, com a região EMEA (Europa, Oriente Médio e África) ligeiramente à frente das Américas.
Estimativas de tamanho de mercado variam conforme a metodologia, mas convergem na direção. A Mordor Intelligence calculou que o mercado global de automação de armazéns deve sair de US$ 29,98 bilhões em 2025 para US$ 65,74 bilhões em 2031, crescendo a uma taxa anual composta de quase 14%. Já a LogisticsIQ projeta US$ 55 bilhões até 2030.
O software é apontado como o grande foco dessa expansão acelerada: segundo a Interact Analysis, estima-se que o mercado de softwares de armazém saltará de US$ 7,2 bilhões em 2023 para US$ 16,6 bilhões em 2030 — uma alta superior a 130%.
O estudo “Infor Reports: Inovação na Logística 2025”, produzido e divulgado pela Infor, apontou na mesma direção: a expectativa é que os investimentos em sistemas de gestão de armazéns e galpões logísticos (WMS) cresçam 19,9% até 2030 em todo o mundo, atingindo US$ 8,3 bilhões em valores de mercado.
O otimismo, contudo, não é irrestrito. A própria Interact Analysis descreve o setor como marcado por contrastes: crescimento de curto prazo apoiado em preços de projeto mais altos e em poucos investimentos de grande porte, entraves estruturais persistentes e um sentimento de investimento ainda cauteloso. Em análise publicada no fim de 2025, a consultoria observou que a incerteza econômica global atingiu o pico no início daquele ano e só depois começou a ceder, levando muitas empresas a adiar decisões de capital.
BRASIL E AMÉRICA LATINA
Na América Latina, a automação intralogística parte de uma base menor — e é justamente aí que reside o potencial. Levantamento da consultoria Ken Research, citado pelo SETCESP, avaliou o mercado de automação logística da região em US$ 1,1 bilhão, com destaque para o segmento de armazéns; a Market Data Forecast projetou que o mercado latino-americano de movimentação de materiais cresça 9,8% ao ano até 2033.
No Brasil, a pressão por eficiência dentro dos armazéns tem componentes bem concretos. A taxa de vacância dos condomínios logísticos caiu a 7,2% no segundo trimestre de 2025, menor nível desde 2016, segundo levantamento da Colliers citado no “Infor Reports”. Ao mesmo tempo, um estudo do ILOS mencionado no mesmo relatório indicou que a proporção dos custos logísticos atribuída à estocagem cresceu de 18% para 23% em relação ao PIB do setor entre 2022 e 2023, movimento associado à baixa previsibilidade da demanda e à falta de sistemas integrados.
No horizonte mais longo, os valores impressionam: os investimentos em automação logística podem ultrapassar R$ 1 trilhão até 2032, segundo dados da Precedence Research publicados pela MundoLogística em agosto de 2025.
Na prática, a transformação combina três camadas. A primeira é a de equipamentos: robôs móveis autônomos (AMRs), veículos autoguiados (AGVs), transelevadores, sistemas shuttle, sorters e soluções goods-to-person. A segunda é a de software — WMS, sistemas de controle de armazém e plataformas de orquestração que coordenam frotas de robôs, estoque e pedidos em tempo real. A terceira é a de dados e Inteligência Artificial, aplicadas a previsão de demanda, endereçamento dinâmico e manutenção preditiva.
Casos brasileiros ilustram o movimento. Em 2024, a MundoLogística noticiou que o Mercado Livre havia implantado no centro de fulfillment de Cajamar (SP) um projeto-piloto com mais de 100 AMRs, com capacidade de processar até 20 mil itens por dia e expectativa de reduzir em até 20% o tempo de processamento de pedidos. A MundoLogística também registrou o investimento de R$ 23 milhões da DHL Express na automação do novo centro de processamento de cargas, bem como a inauguração do GRU9, maior centro de distribuição da Amazon no Brasil — ambos com operação automatizada fornecida pela Águia Sistemas.
As integradoras nacionais vêm ampliando o portfólio com robótica de triagem e armazenagem densa. Em parceria com a chinesa LIBIAO Robotics, a Águia Sistemas passou a oferecer robôs de sortimento como o T-Sort e sistemas como o AirRob, que opera em corredores de 850 mm e movimenta até 1.220 caixas por hora. A LIBIAO, inclusive, vê o Brasil como mercado estratégico para expansão na América Latina.
Movimentos societários também sinalizam consolidação: em junho de 2026, a gaúcha Dalca formalizou joint venture com a italiana Trascar para fornecer soluções completas de intralogística na América Latina.
TRABALHO: SUBSTITUIÇÃO OU REQUALIFICAÇÃO?
O impacto sobre o emprego segue sendo o ponto mais sensível do debate. Relatório do Fórum Econômico Mundial, citado pela MundoLogística, estimou que 85 milhões de postos de trabalho seriam substituídos por processos automatizados até 2025 — mas que outros 97 milhões seriam criados em áreas ligadas a dados, IA e novas tecnologias.
No armazém, isso se traduz em funções emergentes, como a de gestor de frotas de robôs, e no deslocamento de operadores de tarefas repetitivas e fisicamente desgastantes para atividades de supervisão e exceção. O mesmo artigo destacou que cerca de 21% dos armazéns no mundo já usavam alguma forma de robótica em 2023, ante 15% em 2018 — uma adoção real, porém gradual.
No Brasil, porém, o debate ganha um contorno adicional: antes de substituir, falta gente. Levantamento global da Manpower citado no “Infor Reports” indicou que, no âmbito específico de transporte, logística e setor automotivo, a escassez de talentos chega a 91% — e, segundo estudo da FGV mencionado no mesmo relatório, mais de 80% dos recrutadores afirmam ter dificuldade para encontrar profissionais qualificados, com logística e operações entre as áreas mais críticas.
Mesmo assim, fabricantes e integradores sustentam que a automação responde, antes de tudo, à escassez de mão de obra e à volatilidade de volumes — armazéns que precisam de 200 pessoas em um pico e muito menos no dia seguinte, como descreve a Toyota Automated Logistics. Críticos, por outro lado, lembram que os ganhos anunciados por fornecedores devem ser lidos com cautela, que o payback depende de escala e densidade de pedidos, e que projetos mal dimensionados podem engessar operações.
Segundo a Mordor Intelligence, o avanço de modelos como robotics-as-a-service, que converte investimento em despesa operacional e encurta o retorno, é uma das respostas do mercado a essa barreira de entrada.
LOGÍSTICA DO FUTURO
A intralogística — e a automação dessa área — estará presente na agenda do Logística do Futuro 2026. Realizado pela MundoLogística, o evento será realizado nos dias 9 e 10 de setembro, no Transamerica Expo Center, em São Paulo, com foco em soluções práticas para empresas de diferentes portes e níveis de maturidade.
Na 7ª edição, o encontro contará com mais de 100 sessões de conteúdo, uma área de negócios com mais de 250 soluções e uma programação que reunirá alguns dos principais executivos e especialistas do setor no Brasil. As inscrições estão abertas e podem ser realizadas em logisticadofuturo.com.br.
Para esta edição, o Logística do Futuro segue recrutando nomes de peso para inspirar os profissionais do setor. Um dos keynote speakers confirmados é João Branco, que chegou ao McDonald’s em 2014 como diretor de Marketing e liderou o reposicionamento da marca no Brasil, incluindo a transformação da rede em “Méqui”.
Outro nome confirmado é o filósofo, cientista político e professor de Ética e Pensamento Crítico no Insper, Fernando Schuler. Curador do projeto “Fronteiras do Pensamento” e colunista do Estadão, Schuler também atuou na gestão pública como Secretário de Estado do Rio Grande do Sul.
Fonte: Christian Presa - Mundo Logística
Via: Agência Logística de Notícias
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