De educadora a empreendedora: venezuelana remodela sua vida para gerar oportunidades para outros refugiados e migrantes

Após recomeçar a vida com a família em Curitiba, Yedimar Castellano criou o Hub Terra Latina, revalidou seu diploma de pedagogia pela UFPR e conquistou o primeiro lugar na categoria Microempreendedora Individual do Prêmio Empreendedora 2026

De educadora a empreendedora: venezuelana remodela sua vida para gerar oportunidades para outros refugiados e migrantes
SECOM/Ricardo Marajó Yedimar celebra seus dois prêmios recebidos pelo Prêmio Empreendedora 2026 em Curitiba, nas categorias Voto Popular e MEI.

Quando Yedimar Castellano deixou a Venezuela e chegou ao Brasil, em dezembro de 2022, acompanhada do marido e do filho, precisou enfrentar os desafios de reconstruir a vida em um novo país. A adaptação a outro idioma, as diferenças culturais e a busca por oportunidades profissionais faziam parte de uma realidade que exigia disposição para aprender e recomeçar. Em Curitiba, no Paraná, ela encontrou uma maneira de transformar essa experiência em um projeto que hoje ajuda outras pessoas refugiadas e migrantes a desenvolver seus negócios, como foco nas mulheres empreendedoras.

Pedagoga de formação e com experiência no desenvolvimento de pessoas, Yedimar já tinha familiaridade com o empreendedorismo antes de se deslocar com sua família em busca de proteção. No Brasil e sem conhecidos ou familiares, ela precisou conhecer novas formas de trabalhar, compreender a dinâmica do mercado local e construir uma rede de contatos. A decisão de permanecer por um período em casa, acompanhando o filho enquanto o marido buscava oportunidades profissionais, não significou interromper seus planos. “Eu fazia voluntariado e estudava muito. Qualquer aula de empreendedorismo do Sebrae, do Vale do Pinhão, curso de palhaçaria, eu fazia para ter mais conhecimentos. Eu me esforcei para conseguir me adaptar e conhecer o idioma, a forma como os negócios aconteciam por aqui”, conta.

A preparação abriu caminho para uma decisão importante: em vez de limitar sua busca à inserção no mercado de trabalho formal, Yedimar decidiu investir no próprio projeto. “Com a dificuldade de encontrar um emprego formal em minha área de formação, vou impulsionar meu sonho de empreender”, disse.

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A experiência de migrar como ponto de partida

Em dezembro de 2024, nasceu o Hub Terra Latina, uma iniciativa voltada ao desenvolvimento, à criatividade e à geração de oportunidades para a comunidade latino-americana no Brasil. O projeto reúne atividades de consultoria, mentoria, gastronomia, turismo e cultura, conectando empreendedores a conhecimentos e redes de apoio que podem contribuir para a consolidação de seus negócios.

A ideia surgiu também da observação de uma dificuldade compartilhada por muitas pessoas de outras nacionalidades: profissionais com competências, experiências diversas e produtos de qualidade que nem sempre conseguem acessar as redes necessárias para crescer.

Para Yedimar, a experiência de se deslocar pode ser uma fonte de conhecimento, e não algo que precise ser deixado para trás para que a integração aconteça. “Nas mentorias, mudamos a pergunta de ‘como me adaptar?’ para ‘o que existe na minha história que gera valor aqui?’. Não queremos que a pessoa esconda sua essência para ser aceita. Um toque cultural no atendimento, na culinária ou na forma de enxergar o mundo é o que destaca um negócio no mercado”, explicou a empreendedora.

Essa perspectiva também aparece no apoio que oferece a outros empreendedores. Ao aproximar pessoas, conhecimentos e experiências culturais, o Hub Terra Latina procura mostrar que a integração econômica pode beneficiar tanto quem chega ao país quanto as comunidades que o recebem.

Diploma revalidado: reconhecimento de uma trajetória

A construção de uma nova vida profissional também passa pelo reconhecimento das qualificações obtidas no país de origem. Em 2026, Yedimar alcançou uma conquista importante ao ter seu diploma de pedagogia revalidado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O reconhecimento representa mais do que uma etapa burocrática: permite que sua formação acadêmica considerada no Brasil e reafirma o valor dos conhecimentos que ela trouxe consigo. Sua trajetória ilustra um dos desafios enfrentados por pessoas refugiadas qualificadas, que muitas vezes precisam percorrer um caminho adicional para que diplomas e experiências profissionais tenham validade no novo país.

No caso de Yedimar, a revalidação se soma ao trabalho que vem desenvolvendo como empreendedora. Sua história combina a busca pelo reconhecimento profissional com a criação de uma iniciativa própria, capaz de mobilizar conhecimentos adquiridos ao longo da vida e colocá-los a serviço de outras pessoas.

Reconhecimento que amplia oportunidades

O trabalho desenvolvido à frente do Hub Terra Latina ganhou destaque em Curitiba. Em outubro de 2026, Yedimar conquistou o primeiro lugar na categoria Microempreendedora Individual (MEI) do Prêmio Empreendedora 2026, promovido pela Prefeitura de Curitiba e pela Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação. Ela também recebeu o reconhecimento por voto popular, após mobilizar pessoas de diferentes países em apoio à iniciativa.

A premiação reconhece o trabalho de impacto cultural e comunitário do Hub Terra Latina. Além de celebrar os resultados alcançados, o reconhecimento amplia a visibilidade de um negócio que busca transformar experiências de deslocamento forçado em oportunidades econômicas e de convivência intercultural.

Para Yedimar, manter esse propósito também exige aprender a gerir o empreendimento de forma sustentável. “No começo, a vontade de ajudar fala mais alto, mas para que o impacto seja duradouro, o negócio precisa ser viável. Aprendi a precificar corretamente, criar processos e valorizar o trabalho. Sustentabilidade financeira também é uma forma de proteger o propósito e ampliar o alcance da nossa ajuda”, afirmou a empreendedora.

A trajetória da empreendedora mostra como a reconstrução da vida em outro país pode envolver diferentes dimensões: cuidar da família, aprender uma nova cultura, reconstruir o espaço profissional, ampliar conhecimentos e criar oportunidades para outras pessoas. Ao transformar sua experiência em uma iniciativa coletiva, Yedimar não apenas constrói o próprio caminho, mas também contribui para que outras pessoas que tiveram que se deslocar encontrem formas de empreender sem abrir mão de suas histórias e identidades.

Fonte: ACNUR - Agência da ONU para Refugiados

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