De iFood à Petrobras, empresas apostam no uso de drones na logística brasileira
Casos de sucesso da Speedbird Aero mostram que a tendência começa a sair do campo experimental e a se integrar às cadeias de entrega no país
A cena ainda parece futurista para muitos consumidores, mas drones já fazem parte da logística em algumas regiões do Brasil, ajudando a otimizar entregas: pedidos cruzam o céu para vencer distâncias curtas, gargalos urbanos e áreas onde o transporte terrestre não dá conta. A entrega por drones começa a deixar o campo dos testes e passa a ocupar um papel prático dentro da cadeia de distribuição de cargas leves.
Esse movimento ocorre em meio à expansão do setor de entregas no país. Em 2023, a categoria cresceu 7,5%, segundo o Instituto Foodservice Brasil (IFB). No cenário global, a expectativa é que o mercado de entregas por drones movimente US$ 18,65 bilhões até 2028, impulsionado pela busca por soluções mais rápidas, previsíveis e eficientes.
No Brasil, a consolidação da logística aérea só foi possível após avanços regulatórios. A partir de 2017, com a publicação do RBAC 94 pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), passaram a ser permitidas operações além da linha de visada do piloto, conhecidas como BVLOS (Beyond Visual Line of Sight). Esse tipo de voo ampliou o alcance dos drones e abriu caminho para aplicações logísticas mais robustas, com padrões mais próximos da aviação tradicional.
Foi nesse contexto que a Speedbird Aero iniciou as operações. A empresa surgiu a partir de uma demanda fora do universo do delivery: o transporte de medicamentos, exames e amostras biológicas, um gargalo recorrente em operações de telemedicina e atendimento remoto em regiões isoladas.
Segundo o CEO Manoel Coelho, a limitação não estava na consulta médica, mas na logística física. “Muitas vezes o paciente precisava ser transportado de avião ou de barco e acabava falecendo nesse translado perigoso porque o medicamento ou o exame não chegava em tempo hábil”, afirmou.
A percepção levou o fundador da empresa, Samuel Salomão, que trabalhava com telemedicina nos Estados Unidos, a enxergar os drones como alternativa logística ainda em 2015. A ideia, no entanto, esbarrava na ausência de regras claras. Esse cenário começou a mudar a partir de 2017, com o avanço da regulação brasileira.
PRODUÇÃO NACIONAL E RECONHECIMENTO FORA DO PAÍS
O avanço regulatório brasileiro foi decisivo para que a Speedbird estruturasse uma operação de logística aérea com padrões próximos aos da aviação tradicional. A aproximação com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) começou ainda em 2017, em um momento em que o país passava a consolidar regras mais claras para a aviação não tripulada e permitia operações além da linha de visada do piloto, condição essencial para aplicações logísticas em escala.
Segundo Coelho, esse ambiente regulatório colocou o Brasil em posição mais avançada do que mercados tradicionalmente associados à inovação aeronáutica. “Existe essa percepção de que o país sempre chega depois, mas não é a história. A gente acaba esquecendo da Embraer, esquece de grandes engenheiros e de empresas brasileiras.”
Esse arcabouço é o que, na avaliação de Coelho, separa demonstrações pontuais de uma operação logística estruturada e certificada. A empresa, desde o início, evitou tratar o uso de drones como experimento de inovação ou ação promocional. “Você vê gente colocando um drone pequeno para levar cerveja ou sushi na varanda. Isso não é drone delivery, isso não é logística com drone. É a mesma coisa que pegar um carrinho de mão e colocar uma pessoa em cima: não é transporte público, não é regularizado”, afirmou.
Para ele, só há transporte quando há certificação aeronáutica, processos e possibilidade de operação contínua. “A gente só concebe o transporte como algo sério quando a aeronave é certificada pela Anac e pode ser operada de qualquer lugar do Brasil”.
A decisão de tratar drones como aviação permitiu à Speedbird desenvolver uma operação baseada em tecnologia e engenharia nacionais, com certificações brasileiras que se tornaram referência para a expansão internacional. De acordo com o executivo, esse reconhecimento regulatório é o que viabiliza a atuação fora do país. “É com drone fabricado no Brasil, tecnologia 100% brasileira, certificados no Brasil. E só é certificado em outros países porque a gente tem a certificação brasileira”, disse.
Apesar disso, Coelho avaliou que projetos industriais de alta complexidade ainda encontram pouca visibilidade no ecossistema de inovação brasileiro, mais acostumado a valorizar startups digitais inspiradas em modelos estrangeiros. “O Brasil é muito bom em dar startups que já existem modelos lá fora”, avaliou Essa lógica ajuda a explicar, segundo ele, por que iniciativas brasileiras de engenharia têm baixa repercussão interna, mesmo quando já operam em mercados internacionais.
No caso da Speedbird, essa assimetria aparece mesmo diante de projetos consolidados no exterior, com aeronaves brasileiras em operações permanentes. “Quantas vezes eu recebo vídeo e falo: você sabia que o correio britânico faz entregas com drones da Speedbird? Era o primeiro projeto permanente na história do Reino Unido, destacou.
Para o executivo, a capacidade técnica envolvida nessas operações reflete uma base industrial e acadêmica sólida, historicamente ligada à aviação. A própria posição da Embraer no cenário global, segundo ele, ajuda a dimensionar esse potencial. “A gente tem a Embraer, que é a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo”, ressaltando que essa liderança é sustentada por centros de formação e profissionais altamente qualificados.
Além da proximidade técnica, a relação entre as empresas também se traduz em apoio institucional. A Speedbird recebeu investimento direto da Embraer e passou a acessar mecanismos públicos de fomento à inovação.
No último ano, após seis anos de operação, a empresa também obteve apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) para expandir a capacidade de inovação no Brasil e, em paralelo, recebeu um investimento em Portugal para levar a tecnologia desenvolvida no país ao mercado europeu. Hoje, a Speedbird mantém equipes nos dois países, somando cerca de 50 profissionais, e operações em diferentes mercados internacionais.
DO MARCO REGULATÓRIO À OPERAÇÃO: O USO DE DRONES NO IFOOD
Em janeiro de 2022, o iFood se tornou a primeira empresa brasileira oficialmente autorizada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) a utilizar drones no delivery de alimentos e produtos. A operação vinha sendo testada desde 2020, em parceria com a Speedbird Aero, e marcou a transição da tecnologia do campo experimental para uma aplicação regulada dentro da logística de entregas.
Segundo Manoel Coelho, CEO da Speedbird Aero, o iFood teve papel central na validação do modelo brasileiro de entregas por drones. “Foi exatamente isso que nós começamos com o iFood, deu essa vazão porque o iFood tinha uma, tem ainda um apetite muito grande”, afirmou.
Os primeiros testes ocorreram em Campinas (SP), em parceria com o Shopping Iguatemi, em um trajeto de cerca de 400 metros. Apesar disso, o executivo reforça que o avanço da operação seguiu um ritmo cauteloso. “Aviação é um processo longo de validação de horas, de centenas e milhares de horas de voo”, disse.
Atualmente, o modelo adotado pelo iFood com drones é híbrido e integrado à logística tradicional. A proposta, segundo Coelho, não é substituir o entregador, mas otimizar o percurso mais crítico da entrega urbana. “Você consegue cortar entre 80% e 90% do caminho crítico que o motoboy teria que fazer”, explicou. Nesse formato, o drone atua justamente nos trechos mais complexos da logística urbana, enquanto o entregador realiza a etapa final até o consumidor.
O executivo também apontou benefícios adicionais da operação com drones, como a redução de emissões e o desafogamento das grandes vias urbanas.
DRONES NA LOGÍSTICA: TECNOLOGIA, SEGURANÇA E OPERAÇÃO
A Speedbird atua como uma plataforma de logística aérea baseada no modelo Drone as a Service (DaaS). A empresa desenvolve tanto as aeronaves quanto os sistemas de navegação e controle, voltados ao transporte de pequenos pacotes em aplicações comerciais, industriais e de saúde.
Os drones operam a menos de 120 metros de altitude (400 pés) e seguem rotas previamente planejadas por um sistema próprio de gerenciamento de tráfego aéreo não tripulado (UTM). O software é responsável por definir trajetos, evitar obstáculos e garantir o cumprimento dos requisitos regulatórios. A aeronave monitora os próprios sistemas e pode impedir a decolagem ou executar procedimentos automáticos de contingência caso identifique qualquer anomalia.
As operações são supervisionadas por operadores treinados, que acompanham os voos remotamente a partir de centrais locais. Como medida adicional de segurança, os profissionais monitoram também a radiofrequência do tráfego aéreo tripulado da região.
Os drones da empresa são equipados com sistemas de redundância, paraquedas de emergência e certificação de aeronavegabilidade emitida pela Anac. As aeronaves estão autorizadas a operar durante o dia, à noite e sob chuva leve, sempre dentro das condições climáticas estabelecidas.
Segundo Coelho, a lógica operacional replica práticas da aviação tradicional. “Se você entra numa cabine de pilotos, tem um pilotando e outro comunicando. Nunca os dois fazendo a mesma coisa”, explicou. “Aqui é igual: um operador voa a aeronave e outro cuida da logística.”
As aeronaves contam com redundâncias, paraquedas de emergência e certificação de aeronavegabilidade. “A gente trouxe as melhores práticas da aviação para dentro da operação com drones”, afirmou o CEO.
DIFERENTES MODELOS, MÚLTIPLAS APLICAÇÕES
A frota da Speedbird é composta por três categorias de drones, todos com peso máximo de decolagem de até 25 quilos. O modelo DLV-1 é destinado a pacotes leves, com capacidade aproximada de até 2,5 quilos. O DLV-2 suporta cargas de até 6 quilos. Já o DLV-4, um modelo VTOL (decolagem e pouso vertical), foi projetado para voos de maior alcance, com capacidade de até 5 quilos e operação em trajetos mais longos.
Com essas aeronaves, a Speedbird passou a operar diferentes perfis de carga dentro de um mesmo conceito logístico: transporte rápido, previsível e de baixa interferência terrestre. Os drones são empregados principalmente em rotas curtas e médias, em ambientes urbanos, industriais e remotos, onde o tempo de resposta é crítico e o acesso por vias tradicionais é limitado.
Atualmente, além da operação já conhecida com o iFood, a Speedbird mantém contratos ativos com outros grandes clientes no Brasil, em diferentes segmentos.
Entre eles está a Vale, que utiliza drones para transportar amostras de minério até laboratórios em Carajás (PA), reduzindo o tempo entre a coleta e a análise. Na área da saúde, a Speedbird atua com o Grupo Fleury, realizando o transporte de amostras de exames em cidades como Salvador e Belo Horizonte.
No setor de óleo e gás, a empresa atende à Petrobras. Em 2024, a Speedbird e a estatal realizaram uma prova de conceito de três semanas, conectando a plataforma PCM-09 a 13 outras plataformas num raio de 5,3 km, com entregas que levaram entre 5 e 9 minutos. Além disso, o voo entre a PCM-09 e o TMIB (Terminal Marítimo Inácio Barbosa), popularmente conhecido como Porto de Sergipe, percorreu 16 km em apenas 20 minutos — metade do tempo necessário via embarcação, que pode ultrapassar uma hora considerando o atracamento.
A implementação do DLV-2 no dia a dia das plataformas apresenta potencial na redução de tempo e de custos de logística, assim como na redução das emissões de CO2. O modelo utilizado na operação foi o DLV-2, projetado e construído pela própria Speedbird.
A aeronave pode carregar até 10 kg e realizar entregas com guincho, permitindo operações em locais onde o pouso não é viável. Conectado à internet, o DLV-2 é controlado remotamente, diminuindo a necessidade de pessoal local — um ponto crítico para operações offshore.
Para o CEO da Speedbird, além da agilidade, o uso de drones contribui para a redução das emissões de CO2, ajuda a aliviar o trânsito em centros urbanos, reduz riscos de acidentes e amplia o acesso logístico a regiões antes isoladas. Até o momento, a operação já permitiu economizar cerca de 20 mil quilos de emissões de carbono e transportar aproximadamente 10 mil quilos de carga por via aérea.
EXPANSÃO E PRÓXIMOS PASSOS DA SPEEDBIRD
Nos últimos anos, a Speedbird ampliou a presença internacional. Além do Brasil, a empresa mantém operações e projetos em Portugal, Itália, Escócia, Reino Unido, Bélgica, Singapura e atividades em Israel. Esse movimento faz parte de uma estratégia de expansão global que tem como próximos focos a consolidação na Europa e a entrada no mercado norte-americano.
Segundo Manoel Coelho, a companhia já acumula um histórico relevante no continente europeu. “Nós já estamos há dois anos na Europa, fazendo testes, trabalhando com parceiros tecnológicos e passando pelo crivo das certificações europeias”, afirmou. Ele destacou que o avanço regulatório fora do Brasil foi possível justamente pela experiência prévia no mercado nacional. “Ninguém começa do zero e, em um ano e meio, consegue as certificações mais avançadas da Europa sem histórico. Isso foi possível porque a gente já tinha isso no Brasil”, disse.
De acordo com o executivo, a trajetória internacional cria um efeito de validação entre mercados. “Existe um fator multiplicador: você pula de um mercado para outro e a credibilidade aumenta”, explicou. Essa lógica também orienta a estratégia de entrada nos Estados Unidos. “Quando formos para os Estados Unidos, vamos chegar com a bagagem do Brasil, que é um país continental, com desafios logísticos enormes”, afirmou.
A avaliação positiva também se estende ao agronegócio, um dos vetores de crescimento da aviação não tripulada. “Isso vale para o agro também. O produtor brasileiro é um empresário, investe em tecnologia, em drones de pulverização, porque são mais precisos”, afirmou.
Por fim, o CEO criticou a ausência do Brasil em rankings globais do setor e reforçou o objetivo estratégico da empresa. “Muitas listas internacionais de crescimento da aviação não tripulada ignoram o Brasil e a América Latina”, disse. “E o que a gente quer é colocar o Brasil de volta nesse mapa”, ressaltou.
Fonte: Camila Lucio - Mundo Logística
Via: Agência Logistica de Notícias
Contatos: +55 91 98112 0021
contato@agencialogistica.com.br














Comentários (0)
Comentários do Facebook