Privatização ou concessão: O equívoco que pode travar desenvolvimento logístico no Brasil
Confusão de termos foi materializada com a política pública de transformar rios em hidrovias, acirrando ânimos e criando oposição a projetos de infraestrutura
Muitos técnicos, mesmo aqueles de bom nível — autoridades de governo, por exemplo —, profissionais liberais e empresários confundem privatização com concessão. Como se as duas formas de política pública fossem a mesma coisa.
Apesar de diferenças conceituais e metodológicas, essa confusão de termos pode provocar inúmeros reflexos em processos de decisão, inclusive levando à inviabilidade de certos projetos. Apesar dos méritos desses projetos, essa (con)fusão de palavras cria um cenário de oposição tão radical que os torna socialmente indesejáveis.
Esclarecendo: privatização é a transferência da posse e da propriedade de um ativo público ao setor privado; concessão é a outorga ao setor privado do direito de explorar um ativo público. Na privatização, o ativo passa a ser privado; na concessão, o ativo continua público e reversível ao final do contrato.
Esse cenário de confusão de termos foi materializado recentemente com a política pública de transformar nossos rios em hidrovias. Bastaram alguns artigos em jornais e revistas, aliados a entrevistas e à ocupação de uma empresa que nada tinha a ver com a situação — todas versando sobre os “malefícios da privatização dos rios” —, para que o Governo recuasse e praticamente inviabilizasse todo o processo pela insegurança jurídica e operacional que proporcionou com tal decisão.
Confundir concessão de um serviço com privatização dos ativos públicos é um erro crasso de comunicação que só acirra ânimos e cria um ambiente fértil para uma forte oposição ao processo. Enquanto a privatização tem um dono, a concessão tem um parceiro do setor público.
Na nossa visão, foram cometidos inúmeros erros na implementação do processo — desde a comunicação à sociedade, passando pela modelagem, pela falta de busca de alianças e pela avaliação do próprio bem público a ser explorado. Os rios brasileiros fazem parte da vida, da cultura e da subsistência de muitas comunidades ribeirinhas. Transferir essa gestão ao setor privado demanda uma enorme precisão de modelos e termos que sejam compreensíveis para essas comunidades e para a sociedade como um todo.
Começando pela comunicação às pessoas diretamente impactadas, alguns pontos são neurálgicos para o sucesso do projeto. São eles:
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Tornar claros os benefícios que o projeto trará à população;
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Ouvir e avaliar dúvidas e temores;
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Esclarecer que o projeto não impedirá a continuidade da integração da população com o ambiente aquaviário;
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Responder a perguntas como: “Haverá transporte de passageiros?”, “Como fica a mobilidade aquaviária em embarcações próprias?”, “O livre acesso será obrigatório?”, “O ambiente de lazer que tenho hoje terei amanhã?”; e “Que benefícios serão agregados à população após o processo?”;
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Evitar a defesa do projeto somente pela redução de custo logístico — na visão dos impactados, essa redução de custo será integralmente apropriada pelo setor privado;
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Avaliar com transparência e serenidade a visão de que “enquanto o comboio passa, eles ficam mais ricos e nós mais pobres”;
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Estabelecer que respeito, adoção de posição verdadeira e clareza são atributos fundamentais para criar confiança mútua de propósitos.
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Tornar a população impactada parte da solução — e não marginal ao processo decisório.
Por fim, durante reunião da Câmara Temática de Infraestrutura e Logística do Ministério da Agricultura (CTLOG/MAPA), realizada em 26 de fevereiro de 2026, na Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), sugeri a criação de um Fundo de Desenvolvimento Local (FDL), com recursos advindos da própria concessão dos serviços de transporte por hidrovias, com as seguintes características conceituais:
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Trata-se de um mecanismo financeiro de retenção de parte das receitas da concessão para garantir o cumprimento de determinadas obrigações relativas a projetos socioeconômicos voltados às populações impactadas;
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Baseado em uma conta vinculada, semelhante a uma escrow account (conta notarial) existente em concessões rodoviárias, com vistas a assegurar que os recursos aportados sejam destinados a finalidades específicas;
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Será administrado por representantes da própria população impactada;
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Terá a função exclusiva de financiar ações de desenvolvimento social, como escolas, saneamento, lazer e transportes;
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Deverá haver aderência às políticas públicas municipais, porém sem vinculação orçamentária ou política local;
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As cláusulas contratuais devem prever os aportes segundo um cronograma previamente aprovado.
Em suma, o projeto de transformação dos rios em hidrovias só é possível com uma comunicação clara e eficiente, com a adesão das comunidades impactadas e com uma modelagem que inclua um fundo de apoio que financie benefícios sociais e econômicos à sociedade local.
*Luis Baldez é presidente-executivo da Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Carga (ANUT).
Fonte: Mundo Logística
Via: Agência Logística de Notícias
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