Ferrovia brasileira: Crescimento real, concentração estrutural e os limites da eficiência logística
Previsibilidade operacional é particularmente relevante em sistemas ferroviários fortemente orientados à exportação, nos quais atrasos ou interrupções em alguns locais podem afetar cadeias produtivas inteiras
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) divulgou recentemente o fechamento das estatísticas ferroviárias 2025, consolidando informações detalhadas sobre a movimentação de cargas por ferrovia no Brasil, incluindo toneladas úteis (TU), tonelada?quilômetro útil (TKU) e relações de origem–destino. Os dados oferecem uma oportunidade qualificada de analisar o papel efetivo da ferrovia na logística nacional para além dos volumes agregados que são tradicionalmente divulgados.
Em um país de dimensões continentais, a simples observação do crescimento do volume transportado (TU) não é insuficiente para avaliar ganhos reais de eficiência logística. A leitura conjunta de TU, TKU e origem–destino permite compreender onde a ferrovia é competitiva, quais fluxos são relevantes e como o sistema ferroviário se posiciona na matriz de transporte de cargas.
O indicador de tonelada?quilômetro útil (TKU) revela o esforço logístico associado a esse transporte. Em termos práticos, o TKU permite distinguir fluxos curtos e intensos de fluxos longos e estruturantes — distinção fundamental para compreender competitividade, custo e função modal.
Essa diferença é particularmente relevante no contexto ferroviário. Um crescimento expressivo em TU pode decorrer do aumento de fluxos de curta distância, com impacto limitado sobre a matriz logística nacional. Já um crescimento em TKU, sobretudo quando acompanhado por aumento da distância média implícita (razão entre TKU e TU), indica a utilização da ferrovia como eixo de transporte de longa distância, substituindo ou complementando o modal rodoviário.
Crescer em TU não é, necessariamente, crescer em relevância logística. Variações distintas entre esses dois indicadores podem sinalizar mudanças no perfil dos fluxos atendidos, na concentração dos corredores ferroviários ou na integração da ferrovia com cadeias produtivas voltadas à exportação.
A consolidação dos dados ferroviários entre 2016 e 2025 revela que a evolução da movimentação de cargas por ferrovia no Brasil não seguiu uma trajetória de crescimento contínuo. Tanto os volumes transportados (TU) quanto o esforço logístico medido em TKU apresentaram oscilações relevantes ao longo da década, refletindo ciclos econômicos, choques externos e limitações do sistema.
Após um período de crescimento consistente entre 2016 e 2018, impulsionado principalmente por commodities agrícolas e minerais em corredores já consolidados, observa?se uma inflexão em 2019, aprofundada em 2020, em função da desaceleração econômica e dos impactos da pandemia sobre cadeias produtivas e fluxos logísticos. Entre 2021 e 2022, os indicadores apontam relativa estabilidade, sugerindo uma fase de manutenção dos fluxos existentes, sem expansão significativa da malha atendida.
A partir de 2023, os dados indicam retomada tanto em TU quanto em TKU, acompanhando o crescimento da produção e das exportações. A seguir, será demonstrado que, essa recuperação ocorre de forma concentrada, confirmando que o sistema ferroviário brasileiro permanece ancorado em poucos corredores, sem ganhos relevantes de capilaridade ou diversificação geográfica.
Esse comportamento não invalida, contudo, a identificação de avanço no uso do modal. A elevação consistente da razão TKU/TU ao longo da série indica que, mesmo em um contexto de oscilações de volume, a ferrovia vem sendo progressivamente utilizada em percursos de maior distância média, aprofundando seu papel como eixo logístico de longa distância.
A análise das principais relações origem–destino ferroviárias, ordenadas por TKU em 2025 e acompanhadas ao longo do período 2016–2025, evidencia elevado grau de concentração do transporte ferroviário brasileiro. Poucos corredores respondem por parcela dominante do esforço logístico nacional, confirmando que o sistema ferroviário opera mais como um conjunto de eixos do que como uma rede distribuída.
Os fluxos de minério de ferro oriundos da região de Carajás (PA) e da Serra Sul (PA), com destino ao porto de Ponta da Madeira (MA), mantêm?se como o principal pilar do TKU ferroviário brasileiro ao longo de toda a série histórica, ainda que apresentem oscilações associadas ao ciclo mineral e às condições do mercado internacional. Esses corredores apresentam elevada estabilidade operacional e longas distâncias médias (entre 890 e 950 km), características que maximizam a competitividade ferroviária.
Em paralelo, observa?se a consolidação de corredores agroexportadores, com destaque para os fluxos partindo de Rondonópolis, no Mato Grosso, em direção ao porto de Santos em São Paulo (cerca de 1,6 mil km em trajeto ferroviário). Os dados indicam crescimento consistente ao longo da última década, sinalizando o fortalecimento da ferrovia como alternativa para o escoamento de grãos em longas distâncias.
A elevada concentração do TKU ferroviário brasileiro em poucos corredores (10 deles concentram ~60% do total movimentado por 842 diferentes origens/destinos) impõe riscos sistêmicos relevantes à logística nacional. Corredores altamente especializados operam com elevada produtividade e previsibilidade, porém reduzem a resiliência do sistema diante de choques setoriais, variações de demanda ou interrupções operacionais localizadas
Do ponto de vista do planejamento, os dados indicam que os ganhos logísticos futuros da ferrovia brasileira dependerão menos do aumento marginal de volume nas rotas já consolidadas e mais da capacidade de expandir sua função logística, seja por meio da diversificação de fluxos, da integração modal ou do uso mais intensivo de ferramentas de planejamento que aumentem a previsibilidade operacional.
Nesse cenário, o uso de ferramentas de simulação e análise preditiva assume papel central. Modelos capazes de antecipar conflitos de capacidade, avaliar cenários de demanda, sincronizar fluxos intermodais e reduzir a variabilidade operacional tornam-se fundamentais para transformar capacidade instalada em desempenho logístico efetivo. O ganho não está apenas na redução de tempos médios, mas na diminuição da incerteza associada às operações.
A previsibilidade operacional é particularmente relevante em sistemas ferroviários fortemente orientados à exportação, nos quais atrasos ou interrupções em alguns locais podem afetar cadeias produtivas inteiras. Ferramentas de apoio à decisão permitem deslocar o foco da reação a eventos para a antecipação de gargalos, contribuindo para maior estabilidade operacional e melhor utilização dos ativos existentes.
Fonte: Dennis Caceta - Mundo Logística
Via: Agência Logistica de Notícias
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