Super El Niño já eleva risco operacional e jurídico e pode afetar preços, inflação e crédito no agronegócio

O avanço do Super El Niño transforma o fenômeno em um vetor de risco econômico, operacional e jurídico para toda a cadeia produtiva.

Super El Niño já eleva risco operacional e jurídico e pode afetar preços, inflação e crédito no agronegócio
Oceanos da Terra com destaque para o Pacífico exibindo a distribuição de correntes e o fenômeno El Niño stock.adobe - Photo: (Divulgação).

A combinação de eventos climáticos extremos já começa a ser incorporada por analistas, estrategistas e gestores, que apontam impactos relevantes sobre energia, agronegócio, varejo e inflação implícita. O avanço do Super El Niño transforma o fenômeno em um vetor de risco econômico, operacional e jurídico para toda a cadeia produtiva.

Segundo Ieda Queiroz, coordenadora da área de agronegócios do CSA Advogados, o setor inicia a safra 2026/2027 em um ambiente de cautela. “A perspectiva de um El Niño de forte intensidade acrescenta um novo fator de risco a uma safra que já começa cercada de cautela. A preocupação está na possibilidade de redução de produtividade, perda de qualidade, aumento dos custos de produção e comprometimento da segunda safra, especialmente do milho”, afirma. Ela observa que, embora as projeções iniciais para a soja indiquem produção elevada, o crescimento deve ser mais moderado. “Mesmo perdas localizadas podem produzir efeitos econômicos relevantes, sobretudo para produtores que operam com margens reduzidas ou elevado grau de alavancagem”, explica.

Além dos impactos sobre lavouras e receitas, especialistas em gestão operacional alertam que o El Niño deve pressionar também a infraestrutura, a armazenagem e o controle de ativos no campo. “O agronegócio brasileiro deve enfrentar nos próximos meses um dos ciclos climáticos mais desafiadores das últimas décadas. O Super El Niño vai afetar lavouras, rebanhos, logística, armazenagem e operações industriais”, afirma Pedro Sobreira, diretor técnico-operacional da Eco Inventory.

Ele lembra que, num cenário no qual as perdas pós-colheita por falhas de armazenagem e controle podem chegar a 30%, enquanto produtores com inventários estruturados reduzem entre 10% e 25% dos custos operacionais anuais. “A empresa rural e a agroindústria precisam saber exatamente o que possuem, onde está cada ativo e qual é o nível real de estoque para reagir rapidamente a eventos climáticos extremos. O Super El Niño exige precisão, rastreabilidade e dados confiáveis”, diz.

Para Sobreira, a falta de visibilidade patrimonial aumenta a vulnerabilidade de máquinas, equipamentos, silos, armazéns, insumos e estoques estratégicos. “A resiliência climática começa com informação confiável. Uma ferramenta de controle da produção pode ajudar o produtor a proteger seu patrimônio e manter a operação funcionando mesmo em cenários extremos”, completa.

Contratos sob pressão: clima não é mais força maior automática

O risco jurídico também cresce. Frederico Favacho, sócio de agronegócios do Santos Neto Advogados, lembra que eventos climáticos severos não garantem automaticamente o enquadramento em força maior. Segundo ele, “o Super El Niño pode reduzir a produtividade e isso pode significar impacto no cumprimento dos contratos. O problema é que as questões climáticas já não são consideradas força maior por fazerem parte do risco da atividade do produtor e por existirem meios de mitigação, como seguro de safra.”

Favacho reforça que produtores que vendem antecipadamente devem evitar comprometer volumes acima do que poderão entregar após a colheita.

Para Ieda Queiroz, o maior risco não é uma quebra generalizada da produção, mas a interação entre fatores produtivos, financeiros e operacionais. “Um produtor capitalizado pode atravessar uma perda pontual de safra; para aquele que já carrega dívidas de ciclos anteriores, enfrenta crédito mais caro e comprometeu parcela relevante da produção futura, a mesma perda pode representar um problema de liquidez e solvência.”

O conjunto de eventos extremos — seca, excesso de chuvas, queimadas e ondas de calor — reforça a necessidade de gestão integrada dos riscos produtivo, financeiro, jurídico e patrimonial, com cautela na venda antecipada, revisão do endividamento, fortalecimento da infraestrutura e adoção de tecnologias de controle e rastreabilidade.

Fonte: Ela Comunica - Priscyla Costa/Sócia

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